Imagine um futuro em que a Inteligência Artificial não seja privilégio de grandes corporações ou de jovens engenheiros do Vale do Silício. Um futuro em que pessoas com mais de 50 anos, servidores públicos, empreendedores locais e comunidades vulneráveis também possam criar, usar e se beneficiar das tecnologias mais avançadas. Esse futuro parece distante? Pois o projeto IA no DF acaba de dar um passo importante rumo à realidade.
Recentemente, foi lançado no Distrito Federal o Centro Integrado de Inteligência Artificial (CIIA-DF), umaa iniciativa inovadora voltada à promoção de uma IA inclusiva, cidadã e acessível. Localizado em Brasília, o centro une governo, universidades, startups e sociedade civil com um objetivo comum: fazer da IA uma ferramenta de transformação social e não apenas mais uma vitrine de sofisticação tecnológica.
IA para todos: um novo paradigma
Ao contrário da narrativa dominante, que costuma associar IA a empregos extintos e à automação impiedosa, o CIIA-DF aposta na inteligência artificial como alavanca para o desenvolvimento humano. E faz isso com base em uma visão corajosa: incluir no processo aqueles que tradicionalmente são excluídos da inovação tecnológica.
O centro oferece formação gratuita em IA generativa, ética computacional, programação e pensamento computacional para públicos diversos, incluindo pessoas 50+, mulheres em situação de vulnerabilidade e profissionais de áreas não tecnológicas. Além disso, promove laboratórios intergeracionais, em que jovens e idosos trocam experiências na construção de soluções digitais.
Por que isso importa?
Segundo dados do IBGE, a população brasileira com mais de 50 anos já ultrapassa os 56 milhões de pessoas. Apesar disso, esse grupo ainda é amplamente negligenciado pelas políticas de inovação e capacitação digital. Em um país que envelhece rapidamente, promover a inclusão tecnológica dessa parcela é não apenas um imperativo social, mas também uma estratégia inteligente de desenvolvimento.
O CIIA-DF surge como resposta concreta a esse desafio. Mais do que treinar pessoas para o futuro do trabalho, ele busca criar um novo pacto entre gerações e saberes, colocando a IA a serviço de soluções locais: desde plataformas de cuidado para idosos até aplicativos voltados à saúde pública, passando por ferramentas de inclusão para pessoas com deficiência.
O risco da exclusão digital invisível
Vivemos uma corrida global pela liderança em IA. Países investem bilhões, empresas disputam talentos, algoritmos se sofisticam a cada semana. Mas o que acontece com quem não tem acesso a essa corrida? A exclusão digital de pessoas acima dos 50 anos é um tema que raramente ganha manchetes, mas seus efeitos são profundos: desemprego estrutural, isolamento social, dificuldade de acesso a serviços e uma crescente sensação de obsolescência.
É preciso lembrar que a IA é uma tecnologia de uso geral. Como a eletricidade ou a escrita, ela atravessa todos os setores da vida social. Deixar um grupo inteiro da população de fora desse processo é condená-lo a uma forma silenciosa de analfabetismo digital. O Centro Integrado de IA tenta reverter esse quadro, oferecendo não apenas cursos, mas experiências formativas, oficinas com exemplos reais, linguagem acessível e apoio psicossocial.
O que torna essa iniciativa diferente?
O CIIA-DF não é um centro de pesquisa fechado em si mesmo. Ele funciona como um ecossistema aberto, com parcerias que vão da Universidade de Brasília (UnB) ao Sebrae, da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) a coletivos de cultura periférica. Sua governança é colaborativa e seus projetos são co-criados com as comunidades locais.
Entre as ações em andamento, destacam-se:
- Criação de uma plataforma de IA para gestão humanizada de serviços públicos.
- Laboratórios de design especulativo com idosos para imaginar tecnologias futuras.
- Apoio a startups de impacto social focadas em acessibilidade e educação.
- Oficinas de prompt design para pessoas 50+, com uso de ferramentas como ChatGPT, Midjourney e Gemini.
IA, comunicação e novos imaginários
Ao promover a participação ativa de grupos diversos na concepção de soluções baseadas em IA, o CIIA também contribui para mudar a narrativa dominante sobre tecnologia. Em vez da visão determinista de um futuro automatizado e desumanizado, o centro aposta em um imaginário mais plural, em que inteligência artificial e sabedoria humana caminham juntas.
Esse ponto é fundamental. O modo como comunicamos e representamos a IA influencia diretamente quem se sente convidado a participar dela. Quando as imagens e os discursos sobre IA são dominados por homens jovens, brancos, falando inglês técnica e codificada, acabamos excluindo grande parte da população da simples possibilidade de imaginar-se nesse mundo.
O CIIA entende que comunicação é tecnologia. Por isso, desenvolve também conteúdos audiovisuais, podcasts, narrativas interativas e materiais educativos que traduzem a IA em linguagem do cotidiano, com exemplos locais, sotaques diversos e formatos acessíveis.
Pode a IA ser inclusiva de verdade?
A pergunta não é trivial. Muitos projetos de “inclusão digital” acabam reproduzindo desigualdades sob outra roupagem. Oferecem cursos descolados da realidade, ignoram saberes populares, impõem soluções prontas sem escuta ativa. O CIIA tenta seguir outro caminho.
Inspirado por abordagens de educação popular, como a de Paulo Freire, o centro propõe uma formação dialógica, em que as pessoas são vistas como produtoras de conhecimento e não apenas como usuárias. Em vez de ensinar “como usar a IA”, busca-se entender “que IA queremos criar juntos”.
Esse reposicionamento é potente. Ele transforma a IA de uma caixa-preta misteriosa em um campo de experimentação cidadã. E isso tem efeitos concretos: aumenta a autoconfiança, fomenta a autonomia, incentiva a inovação de base comunitária.
Cultura digital como direito
Por trás da proposta do CIIA-DF está uma ideia simples e radical: a cultura digital é um direito. Assim como temos direito à educação, à saúde ou à mobilidade, também deveríamos ter garantido o acesso pleno, criativo e crítico às tecnologias que moldam nosso presente e futuro.
Isso significa mais do que distribuir computadores ou conectar escolas à internet. Significa criar espaços de formação continuada, estimular a produção de conteúdo local, fomentar a alfabetização midiática, ampliar a diversidade nos processos de inovação.
O CIIA está dando os primeiros passos nessa direção. E embora ainda seja cedo para medir seus impactos de longo prazo, sua existência já é, por si só, um sinal importante: é possível pensar tecnologia de forma mais humana, mais acessível e mais justa.
Para onde vamos?
O futuro da IA no Brasil não está escrito. Ele está sendo disputado em cada decisão de política pública, em cada investimento em educação, em cada centro como o CIIA que decide apostar em gente antes de algoritmos.
Podemos seguir importando soluções estrangeiras e mantendo as velhas hierarquias digitais. Ou podemos usar esse momento de transição tecnológica para construir um novo pacto social em torno da inovação.
A aposta do Distrito Federal é clara: não basta ter IA, é preciso ter inteligências diversas, conectadas, atuantes. E isso começa com uma mudança de mentalidade: ver cada cidadão não como consumidor passivo de tecnologia, mas como sujeito ativo de transformação.
Quem sabe, então, em vez de perguntar se a IA vai substituir humanos, não devíamos começar a perguntar: que humanos queremos ser na era da IA?
