Os boatos sobre a morte da neutralidade tecnológica foram, infelizmente, precisos.” Parafraseando Mark Twain, essa poderia ser a epígrafe do momento atual da Inteligência Artificial nos Estados Unidos, à medida que o governo norte-americano anuncia uma nova leva de estratégias para consolidar sua liderança global no campo.
Enquanto o mundo debate os limites e as possibilidades da IA, a administração dos EUA aposta numa equação ambígua: liberdade de mercado, força geopolítica e discursos polarizados.
A dupla face da inovação: desregulação e exportação
O plano de ação divulgado recentemente pelo governo Trump — um documento de 28 páginas — propõe três pilares centrais: evitar regulações que possam sufocar o setor privado, expandir as exportações de tecnologias de IA e combater o que foi chamado de “IA wokeness”. Este último termo, de difícil tradução direta, representa uma crítica ao uso da inteligência artificial em agendas consideradas progressistas ou inclusivas demais.
Mais do que um conjunto técnico, trata-se de um plano com claras intenções ideológicas. Ao defender a não regulação da IA, a proposta ignora debates essenciais sobre ética, viés algorítmico, impacto social e vigilância digital. Ao mesmo tempo, projeta os EUA como uma potência exportadora de tecnologias que, por serem “livres de ideologias”, seriam mais competitivas frente à China.
O Congresso e o contraponto ético
Em um movimento paralelo — e em parte contrastante —, o Congresso norte-americano lançou um segundo plano estratégico voltado à IA. Com foco em colaboração entre universidades, empresas e governo, esse programa busca fortalecer a responsabilidade ética, apoiar pesquisas em inovação e garantir que os EUA mantenham sua posição de liderança global, mas sem negligenciar os riscos sociais e ambientais da tecnologia.
Esse segundo documento reconhece que o “capital algorítmico” dos EUA precisa vir acompanhado de salvaguardas éticas, governança transparente e uma visão de longo prazo. Em outras palavras, tenta responder à pergunta: não basta liderar — é preciso liderar com responsabilidade?
China no espelho retrovisor
Ambos os planos, apesar de suas diferenças, compartilham um mesmo pano de fundo: a crescente competição com a China pelo domínio da IA. De forma explícita ou velada, os documentos norte-americanos posicionam a rivalidade geopolítica como o principal catalisador da ação.
Não é por acaso que os termos “soberania tecnológica”, “cadeia de suprimentos” e “exportações estratégicas” aparecem com destaque. O que está em jogo não é apenas a economia digital — mas a própria arquitetura do poder no século XXI.
Entre extremos: a busca por um novo equilíbrio
Esses dois planos revelam uma tensão característica do atual cenário político-tecnológico dos EUA. De um lado, a fé irrestrita no livre mercado e na desregulamentação como motores da inovação. De outro, a consciência crescente de que IA sem responsabilidade pode aprofundar desigualdades, automatizar preconceitos e gerar riscos existenciais.
Em um país dividido, a inteligência artificial tornou-se também um campo de batalha simbólico, onde se disputam narrativas sobre liberdade, segurança, progresso e identidade.
Conclusão: o futuro que os algoritmos desenham
A inteligência artificial deixou de ser apenas um conjunto de códigos — tornou-se um projeto civilizacional. Os novos planos dos EUA deixam claro que estamos diante de escolhas políticas profundas, que moldarão o futuro do trabalho, da democracia e da vida cotidiana.
Mais do que correr atrás da China ou vencer disputas internas, talvez o verdadeiro desafio dos EUA seja construir um modelo de liderança em IA que una eficiência tecnológica, responsabilidade social e abertura ao diálogo global.
Como toda tecnologia poderosa, a IA é um espelho: ela reflete tanto nossas virtudes quanto nossos vícios. Cabe aos países — e aos cidadãos — decidirem o que desejam ver refletido nele.
