Um documento, muitos sinais
Na primeira semana de julho de 2025, em meio à corrida eleitoral norte-americana, o ex-presidente Donald Trump lançou um plano detalhado sobre sua proposta para o desenvolvimento da inteligência artificial (IA) nos Estados Unidos. Embora a iniciativa tenha recebido holofotes principalmente por suas implicações tecnológicas, há um detalhe estratégico que escapou aos olhares mais apressados: o vínculo explícito entre IA e energia.
O plano, ao ser anunciado, trazia uma frase curiosa: “Sem independência energética, não há supremacia em IA.” A princípio, pode parecer apenas retórica nacionalista. Mas essa associação revela uma verdade incômoda que talvez estejamos ignorando: a corrida por inteligência artificial não é apenas uma disputa de algoritmos, mas uma disputa por energia — e, em especial, por quem controlará as fontes que alimentarão os cérebros sintéticos do futuro.
IA consome energia. Muita energia.
Vamos ser diretos: treinar e operar modelos avançados de IA, como o GPT-4, Gemini ou Claude, exige quantidades massivas de eletricidade. Um único treinamento pode consumir mais energia do que uma pequena cidade durante meses. O uso contínuo desses modelos também não é trivial: estamos falando de servidores rodando 24 horas por dia, sistemas de resfriamento, e uma logística global de dados que depende de combustíveis fósseis e minerais raros.
De forma cada vez mais explícita, IA e energia se tornaram irmãs siamesas.
A recente estimativa do International Energy Agency (IEA) prevê que, até 2030, os data centers do planeta poderão consumir mais de 1.000 TWh por ano — o equivalente ao consumo de energia de todo o Japão. Nesse cenário, controlar fontes de energia não é apenas questão ambiental ou geopolítica: é questão de sobrevivência industrial no século XXI.
A nova corrida do ouro (negro e verde)
Não é por acaso que o plano de Trump menciona a reativação de usinas de carvão, incentivos ao petróleo e gás natural, e uma redução nos subsídios para energias renováveis “que não entregam estabilidade”. Ele defende que o crescimento exponencial da IA requer segurança energética total, e que os EUA não podem “depender de placas solares chinesas ou do vento de outros países”.
Podemos discordar das premissas — e eu discordo de muitas —, mas há algo incontornável no subtexto: os países que quiserem liderar o setor de IA precisarão garantir uma infraestrutura energética capaz de sustentar essa ambição.
Aqui vale uma comparação histórica: no século XX, o domínio da aviação redefiniu potências militares. No XXI, a combinação de IA e energia pode reconfigurar a ordem econômica global. Quem domina a IA, domina os dados. Quem domina a energia, decide quantos dados podem ser processados.
Mas não é só Trump. A China também está jogando esse jogo.
A conexão entre IA e energia não é exclusividade do pensamento trumpista. Em fevereiro deste ano, a China anunciou seu plano quinquenal com um capítulo inteiro dedicado à “simbiose energética-digital”, prevendo 20 novos data centers “verdes”, mas alimentados por usinas nucleares — e localizados em regiões estratégicas, longe de áreas urbanas e perto de reservas minerais.
Em outras palavras: a China também entendeu que o jogo da IA exige controle sobre a energia — e não qualquer energia, mas aquela que combina estabilidade, soberania e escalabilidade.
Enquanto isso, na Europa, as discussões se concentram em como regular a IA, sem necessariamente refletir sobre a infraestrutura material que a sustenta. E no Brasil? Bem, ainda estamos debatendo se a IA vai “roubar empregos” ou “ajudar no Enem”.
Do carvão ao silício: as novas rotas do imperialismo digital
A ligação entre tecnologia e energia não é nova. O telégrafo, os trens, os computadores — todos exigiram novas formas de produção e consumo energético. Mas algo mudou: nunca a dependência energética foi tão concentrada em tão poucos atores.
Hoje, cinco empresas controlam a maior parte da infraestrutura de IA (Google, Amazon, Microsoft, Meta e Nvidia). E todas estão investindo em fazendas de energia próprias ou parcerias com governos para garantir prioridade no uso de redes elétricas.
É um novo tipo de imperialismo digital, que conecta o silício dos chips ao lítio das baterias, passando pelo urânio das usinas e o petróleo das redes de distribuição.
Quando Trump propõe fortalecer a matriz energética como pré-condição para IA, ele está apenas escancarando um movimento que já está em curso nos bastidores da tecnologia há anos.
Um alerta para países periféricos
E aqui entra a pergunta que não quer calar: o que tudo isso significa para países do Sul Global?
A resposta pode ser desconfortável. Sem uma política energética integrada à política digital, países como o Brasil correm o risco de se tornarem apenas fornecedores de matérias-primas e usuários finais de tecnologias importadas — sem protagonismo, sem soberania, sem autonomia.
Pensemos nisso: o Brasil é um dos líderes mundiais em produção de energia limpa (hidrelétrica, solar, eólica). E também é uma potência emergente em ciência de dados e pesquisa aplicada. Mas, na prática, esses mundos ainda não conversam. Não temos centros de IA integrados a polos de energia limpa. Não temos incentivos reais para computação de alta performance verde. E estamos assistindo a essa revolução como meros espectadores.
IA verde ou IA geopolítica?
Há quem diga que o futuro da IA será verde, com chips mais eficientes, arquitetura distribuída e modelos menores e mais rápidos. Essa visão otimista tem ganhado força, especialmente entre pesquisadores preocupados com o impacto ambiental da computação em larga escala.
Mas o cenário geopolítico atual aponta para outra direção: a da militarização da IA, da concentração de poder e da dependência de infraestruturas cada vez mais energívoras. É nesse contexto que o plano de Trump deve ser lido: não como um delírio isolado, mas como uma peça em um tabuleiro muito maior.
E se IA for uma questão de segurança energética?
Vamos inverter a lógica: e se o crescimento da IA for o fator que mais acelerará a transição energética global? Não por consciência climática, mas por pura necessidade técnica?
Se olharmos por esse ângulo, talvez o que Trump está fazendo — ainda que com uma retórica duvidosa — seja antecipar um dilema inevitável: quem vai fornecer energia suficiente, com estabilidade e soberania, para sustentar a IA generativa que todos desejam usar?
É uma pergunta que deveria estar no centro dos debates em todos os ministérios de ciência, tecnologia, energia e defesa.
O algoritmo é elétrico
A ascensão da inteligência artificial nos empurra para uma nova era, onde os desafios não são apenas computacionais, mas termodinâmicos. A corrida por IA é, no fundo, uma corrida por energia.
Trump, com seu estilo controverso, apenas vocalizou de forma explícita o que muitas empresas e governos já perceberam: a próxima hegemonia digital será definida tanto pelos chips quanto pelos megawatts.
A pergunta que fica é: estamos nos preparando para isso?
Ou, como em outras revoluções tecnológicas, vamos acordar tarde demais — apenas para descobrir que vendemos nosso lítio, queimamos nosso futuro e alugamos nossos dados… em troca de alguns likes e promessas de “transformação digital”?
